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Não resta dúvida de que o Espírito Santo vive um momento de otimismo com relação a seu futuro. Grandes investimentos nos segmentos de extração de petróleo e gás, siderurgia e pelotização de minério, aliados ao planejamento estratégico do estado, fundamentam tal otimismo. Porém, argumenta-se que essa euforia deve ser vista com precaução, uma vez que o crescimento futuro tem limitações, por ser altamente dependente de recursos naturais, e as empresas capixabas, sobretudo as do setor industrial, têm uma baixa performance inovativa.
Desde os anos 60, a economia capixaba vem crescendo acima da média nacional. Após um longo período de desenvolvimento baseado na cafeicultura, encerrada em função de uma crise criada pela política de erradicação dos cafezais, o Espírito Santo iniciou uma fase de industrialização, que teve dois momentos: o primeiro centrou-se no crescimento de empresas locais de pequeno e médio porte; já o segundo momento teve como grande mote as grandes plantas industriais produtoras de commodities, os chamados Grandes Projetos.
Já a partir dos anos 90, ocorreram mudanças na economia capixaba, tornando-a mais diversificada e mesmo assim dependente da produção de commodities. Naquele período, o setor terciário contribuiu significativamente para o crescimento econômico estadual. A principal justificativa é a expansão das atividades de exportação e importação de bens, em que parte expressiva se deveu ao mecanismo do FUNDAP, que propiciou o surgimento e o crescimento de tradings no estado. Além disso, alguns APLs se fortaleceram – notadamente os de metalmecânico, rochas, móveis e confecções –, o setor de construção civil, bem como as atividades imobiliárias, assistiram a um notável desenvolvimento, e as empresas dos Grandes Projetos ampliaram suas plantas industriais. Mas o grande destaque mesmo foi o ressurgimento da extração de petróleo e gás a partir de novas descobertas em território capixaba, capitaneadas pela PETROBRAS, que anunciou grandes investimentos no estado, movimentando a economia local em termos de empregos e renda e injetando recursos no setor público por meio dos royalties.
Mais recentemente, vem ocorrendo uma mudança institucional substancial no poder público estadual, que recuperou a capacidade de investir e organizou um planejamento estratégico para o Espírito Santo até 2025. Provavelmente, isso contribuiu para o investimento de outras duas grandes plantas industriais produtoras de commodities, a siderúrgica da CSV Baosteel e a usina de pelotização de minério de ferro da Ferrous. Todos esses fatores em conjunto têm gerado um clima de otimismo na mídia, no setor público e no setor privado, sendo comum se escutarem expressões do tipo “o crescimento do Espírito Santo já está contratado”. No entanto, a posição defendida aqui é que esse otimismo deve ser visto com mais cautela por dois motivos.
O primeiro deles é que o Espírito Santo não está inserido na região do polígono – que compreende a região de Belo Horizonte, Uberlândia, Londrina-Maringá, Porto Alegre, Florianópolis e São José dos Campos –, considerada uma referência nacional, a partir dos anos 90, no que tange ao desenvolvimento científico, tecnológico, inovativo e industrial (Diniz 1993, 2002).
O segundo motivo, e que justifica a ausência do estado na região do polígono, é que o Espírito Santo apresenta um fraco desempenho nas atividades científicas, tecnológicas e inovativas. Segundo dados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) do IBGE, a taxa de inovação (empresas que inovaram em relação ao total de empresas pesquisadas) da indústria estadual foi de 37,7% entre 2003 e 2005, um percentual acima da média nacional – que foi de 33,4%. Contudo, esse indicador pode esconder uma realidade não muito boa.
A razão é que, das empresas industriais capixabas que inovaram no período, somente 3,8% o fizeram por meio de atividades internas de P&D, bem abaixo da média nacional (19,9%). Por outro lado, 92,1% dessas empresas locais inovaram por meio da aquisição de máquinas e equipamentos – para o país, esse indicador foi de 81,3%. Ou seja, as indústrias capixabas preferem comprar tecnologia e conhecimento externo a desenvolvê-los internamente, o que proporcionaria ganhos de competitividade e crescimento sustentável no longo prazo.
Ademais, os indicadores de ciência e tecnologia não são animadores. O estado participou apenas com 0,4% das patentes concedidas pelo INPI em 2004, enquanto que os estados que compreendem a região do polígono citada anteriormente concentravam 89,6% desse total. Uma das causas do baixo desempenho é a pouca cooperação do tipo universidade-empresa – entendido atualmente como uma das mais importantes fontes de conhecimento, tecnologia e inovação –, pois somente 9,8% das empresas capixabas que inovaram realizaram esse tipo de parceria.
Um dos reflexos disso é que as exportações capixabas são expressivamente concentradas em commodities. Em 2005 (MDIC 2007), por exemplo, cerca de 77% do valor de suas exportações foi desse tipo de produto, ao passo que para o Brasil o percentual foi de 33%. Por outro lado, as exportações estaduais de produtos industriais de alta e média-alta intensidade tecnológica foram de apenas 0,2% de seu total, enquanto para o país o indicador foi de 31,8%. Nessa linha, assim como o Brasil, o Espírito Santo precisa urgentemente de políticas públicas que revertam a atual trajetória que leva o estado a uma dependência tecnológica e a ser um exportador de commodities.
Por fim, conclui-se que o crescimento econômico do Espírito Santo nos próximos anos está baseado, em grande parte, na produção de commodities, o que apresenta limitações, em função da finitude dos recursos naturais. Assim, investir em inovação e tecnologia, uma das formas de se aumentar a competitividade, é um dos meios de se garantirem taxas de crescimento sustentáveis no longo prazo. Nesse sentido, acredita-se que o estado está perdendo oportunidades, visto que o poder público estadual recuperou a capacidade de investir, mas o tema inovação aparece de forma muito tímida em sua agenda – vale dizer que, dos 93 projetos estruturantes previstos no “ES 2025”, somente 1 está diretamente relacionado à inovação.
REFERÊNCIAS
DINIZ, Clélio Campolina. Desenvolvimento Poligonal no Brasil: nem desconcentração, nem contínua polarização. In: Nova Economia, v. 3, n. 1, set. 1993.
______. Repensando a questão regional brasileira: tendências, desafios e caminhos. In: CASTRO, Ana Célia (org.). Desenvolvimento em debate: painéis do desenvolvimento brasileiro. Rio de Janeiro: Manaud/BNDES, 2002. v. 3. p. 239-274.
CAÇADOR, Sávio B. Um olhar crítico sobre a evolução da economia capixaba nas últimas décadas: uma análise a partir das teorias de desenvolvimento regional e de estatísticas de inovação. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. 2008. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa de Inovação Tecnológica (PINTEC) 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2007b.
MINISTÉRIO DO DESENVOLVIMENTO, INDÚSTRIA E COMÉRCIO EXTERIOR (MDIC). Exportação brasileira dos setores industriais por intensidade tecnológica: 1996-2006. Disponível em: <www.mdic.gov.br>. Acesso em: 1° de dezembro de 2007.
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